Denis Villeneuve dirigiu, em 2010, aquele que seria um dos maiores filmes do século XXI e, provavelmente, também de toda a história do cinema. "Incêndios", obra franco-canadense inspirada na peça "A Mulher que Canta", de Wajdi Mouawad, é um longa desolador e perturbador, o que não o torna menos genial e memorável.
É o puro retrato da dor e do sofrimento e também da fragilidade que é a vida.
Quando assisti “Incêndios” pela primeira vez, eu disse para mim mesma que eu jamais assistiria esse filme de novo, tamanho o impacto que sofri. Eu assisti sabendo que era um filme pesado, mas sem conhecer o plot, o que me deixou ainda mais perturbada.
Hoje, após 4 anos, decidi reassistir o longa, pois acho que quando assistimos a um filme pela segunda vez, pegamos nuances e detalhes que podem ter passado despercebidos da primeira vez - ainda mais em um filme tão complexo e denso como este. Reassistir "Incêndios" já sabendo do plot acaba sendo uma outra experiência, o que não significa que é menos impactante, porque o horror e a dor ainda estão ali.
Enfim, essa resenha, nada técnica e puramente pessoal e emocional, contém spoilers. Cuidado.
Os olhos marejam. Lembro de desde o início pensar: “como pode existir tanto sofrimento no mundo?” e de me questionar se realmente existem tipos de sofrimento. Uma pessoa pode sofrer mais que a outra? Após muito pensar, cheguei na opinião de que existem tipos e tipos de sofrimento. Não gosto do discurso de “você não sofre, quem sofre é fulano que vive isso e aquilo”, porque acho que o sofrimento de um grupo não anula o sofrimento de outro. Não é uma competição, mas de fato acredito que nem todo sofrimento é igual e vejo muito disso em "Incêndios", onde o sofrimento é completamente perturbador e incessante.
A guerra traz um nível de sofrimento desumanizante. Você pode não morrer no sentido mais estrito e literal, mas como fica sua alma após vivenciar tamanho horror? É horrível para todos, sem exceção, mas e quando olhamos para as crianças que vivenciam tamanha barbárie? Crianças que são brutalmente assassinadas ou, abandonadas a própria sorte – muitas ficando órfãs por consequência da própria guerra – passando fome, vivendo em extremo perigo, em fuga, ou sendo recrutadas para perpetuar atrocidades.
Esse é um dos cenários de "Incêndios", onde, ao ficar a mercê da guerra, uma criança que fora concebida do amor acabou se tornando um ser que era puro ódio.
Sabemos que Nihad de maio em algum momento se tornou um atirador de elite e, por fim, acabou se tornando um torturador. Mas antes disso, provavelmente ele foi uma criança que se sentiu perdida, desolada e com medo, especialmente após o ataque ao orfanato. Uma criança que queria encontrar a mãe e que, provavelmente sem esperanças e corrompida pelos horrores vivenciados durante anos de guerra, se tornou também um algoz.
E é claro que nada justifica as atrocidades cometidas por Abou Tarek. Ele cometeu crimes de guerra, e pode ser que talvez, em algum momento, até movido pela própria sobrevivência [como atirador, por exemplo?] — mas o que ele se torna depois já não cabe nessa explicação. A partir do momento em que ele decide se tornar um torturador e abusador de mulheres, deixa de ter a ver com sobrevivência. A guerra desmantelou a criança, que foi reconstruída como uma máquina de causar horror. No fim, Nihad de maio foi uma criança vítima da guerra, assim como muitas outras. Se ele tivesse sido criado em um lar de amor, ele teria se tornado uma pessoa boa? Quem sabe, é difícil de saber, mas ele teria melhores chances, não há dúvida. Porém sabemos também que muitas outras crianças, também à mercê da guerra, não se tornaram algozes.
A guerra é um lixo total e me dói saber que tantas crianças sofrem com isso. Essas crianças deveriam estar brincando, estudando, vivendo a infância, mas muitas estão fugindo, passando fome, vivendo insegurança, isso quando não têm suas vidas, por fim, ceifadas.
"Incêndios" mostra, de maneira nua e crua, como a guerra pode ter consequências inimagináveis. Algumas pessoas dizem que o filme tem muitas coincidências, mas se é coincidência, não é impossível, e se não é impossível, por mais improvável e remoto que seja, ainda é passível de acontecer.
O filho gerado pelo amor cresce e se torna uma pessoa cheia de ódio. Esse ódio é direcionado a muitas mulheres, inclusive a sua própria mãe, e como consequência, temos a concepção daqueles que seriam seus irmãos e filhos, afinal, 1 + 1 = 1.
Essas duas crianças nasceram do ódio, mas essas duas crianças tornaram-se pessoas boas. No entanto, acho muito interessante como a própria Nawal se questiona se os gêmeos não são frutos do amor também.
No fim, é completamente compreensível o colapso da protagonista ao descobrir toda a verdade, já que o filho que ela buscou durante toda a vida, que amou em segredo por décadas, era também a pessoa que provavelmente mais lhe causou sofrimento.
As cartas que ela escreve para Abou Tarek e Nihad de maio são emblemáticas. São genuinamente humanas.
Uma é sobre amor, a outra é sobre ódio, quase como se fossem direcionadas para duas pessoas distintas. No entanto, existe a dualidade, mas não por serem dois seres distintos, e sim a dualidade sentimental, afinal, como você pode simplesmente passar a odiar uma pessoa que você amou durante toda a vida? E como pode simplesmente amar uma pessoa que você odiou a vida inteira?
A dualidade e fragilidade da vida.
Quando os gêmeos entregam a carta para Abou Tarek e o observam, sem reação, também acho que eles sentem essa dualidade: “certo, esse homem é nosso pai e ele é um monstro” e “esse homem é nosso irmão e ele passou por coisas que nenhuma criança deveria passar”. BRUTAL.
A verdade é que mesmo antes do amor, já havia o ódio, porque o ódio estava enraizado naquela pequena vilinha, naquela cidade, naquele país, naquela sociedade. A guerra não surge do nada, tem uma motivação cultural, política, religiosa, étnica, enfim, tem uma "motivação". O namorado de Nawal foi brutalmente assassinado por conta do “ódio”, porque ele era um refugiado.
E assim o ódio transformou a vida de uma garota que tinha muito amor para dar, causando um lastro de dor e sofrimento até seu último momento de vida. Nawal perdeu o filho > buscou incessantemente por ele > se rebelou > foi presa > foi abusada na prisão > concebeu e criou os filhos frutos do abuso > descobriu que seu abusador e pai dos seus filhos gêmeos, era também o filho que ela amou e procurou a vida inteira.
"A mulher que canta” nunca se dobrou, mas carregou um grande peso nas costas durante toda a vida.
"Incêndios" é uma tragédia.
Uma mãe que sofreu durante toda a vida.
Filhos que nunca conseguiram compreender totalmente sua mãe em vida.
Um filho que terá de lidar com o fato de que cometeu atrocidades contra a própria mãe, aquela que ele ansiou conhecer durante toda a vida.
Brutal.
Clássico.
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