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Precisamos falar sobre o Kevin (2011)




Lançado em 2011, "Precisamos falar sobre o Kevin" é um filme definitivamente interessante, ao menos no que tange a psicologia das coisas - e dizendo isso como uma pessoa que não entende bulhufas de psicologia. O longa é baseado no livro de mesmo nome (We need to talk about Kevin) de autoria da escritora norte-americana, Lionel Shriver, e cumpre perfeitamente seu papel de ser incômodo e reflexivo. 


...e ser incômodo não é algo ruim, muito pelo contrário, é exatamente o tipo de sentimento que uma história como essa se propõe a ser. A direção de arte faz um trabalho impecável em toda a comunicação visual que nos permite adentrar nesse seio familiar desconexo e estranhíssimo. 


E desconexão é a palavra. Muitas pessoas veem esse filme como sendo só sobre "uma família lidando com um filho psicopata", mas acho que vai muito além, acho que o longa se trata muito mais da relação mãe x filho, de maternidade, da criação de crianças atípicas, dos papéis de mãe e pai em uma relação familiar, entre outros


Enfim, quero dar meus 2 centavos e, como bem dito, não sou da área de psicologia e não quero tentar diagnosticar personagens, quero apenas dar uma papeada bem emocional e verborrágica, como de praxe. Enfim. Contém spoilers.






Acho que talvez um pouco dos três, pois nenhum ser humano é igual ao outro, somos complexos por si só. Concordo que o ambiente tem grande influencia sobre nós e que nossas experiências de vida podem nos moldar - o que conversa com a 'folha branca' de Locke. No entanto concordo também, bem como Maquiavel e Rousseau,  que nascemos sim, com algum tipo de natureza, que pode ser boa ou má. 


Quando olho para o nosso protagonista, o Kevin, vejo sim uma criança que nasceu com algum tipo de atipia [natureza]. Psicopatia, sociopatia, não sei bem e nem poderia determinar, mas acredito que dificilmente ele se tornaria um adulto estritamente "normal". No entanto, em um lar diferente, talvez mais amoroso, caloroso, menos desconexo e com uma criação menos permissiva, talvez essa atipia fosse direcionada de outras maneiras [folha branca] e não culminasse em um ato tão extremo e violento como uma chacina. 


O que quero dizer é que a atipia, que sempre estaria ali, já que é sua natureza, poderia se manifestar de maneira diferente se ele tivesse também uma criação diferente. Um adulto socialmente estranho, talvez manipulador, ou muito persuasivo e eloquente, mas talvez não assassino. Há casos de pessoas com esses traços que nunca chegam a cometer violência extrema; eles existem, mas essas características acabam se expressando de outras formas.


No longa, temos como ambiente uma mãe que possivelmente não queria ou não entendia muito bem como ser mãe. Eva e Kevin nunca conseguiram se conectar e isso vem desde o período gestacional, eram como dois estranhos. 


Será que a criança sente? Se sente, sentia desde a barriga? Existe conexão mesmo na desconexão? 






Não sou mãe, mas sei que a maternidade tem seus desafios. A primeira gestação de Eva [o nascimento de Kevin] não foi planejada [a segunda já não sei], então temos uma mulher que não estava pronta para ser mãe naquele momento. Por mais que Eva tentasse se conectar com a criança e vice-versa, essa conexão simplesmente não ocorria, resultando assim numa relação desconexa, estranha e de constante tensão entre mãe e filho. Desde pequeno o Kevin se mostrava impertinente, desafiando essa mãe que já não conseguia criar um vínculo com o filho. Sobre o que levou a essa impertinência, se foi sua natureza, se foi a percepção de sentir rejeitado ou se ambos ou outros fatores, não fica tão claro. 


Por isso acho que seja questão de timing. Um bom exemplo é o próprio nascimento da Celia. Na segunda gestação, Eva já era uma pessoa diferente, mais madura, mãe de segunda viagem, e por suposto, conseguiu dar um tipo de criação diferente para a menina. Nesta época mesmo, com Kevin já adolescente, percebemos que a mãe tenta também se aproximar mais do filho, demonstrando esse amadurecimento. 


Bem, eu tenho a crença de que algumas mulheres não nasceram para ser mães, bem como alguns pais não nasceram para ser pais. Não acho que seja o caso da Eva, como dito, acho que foi mais uma questão de timing, uma mulher nova, independente, com carreira, uma vida totalmente diferente e em liberdade, que viu sua vida mudar de uma hora para outra. Além disso, ela teve que lidar com toda essa "novidade" sem um apoio imediato, já que o marido estava muitas vezes ausente, por conta do trabalho, e quando presente, não ajudava muito.


Aqui podemos falar também sobre os papéis de mãe e pai nas dinâmicas familiares e, como, muitas vezes, um acaba sendo mais sobrecarregado que o outro, muitas vezes a mãe, que tem que lidar com a criação dos filhos e cuidados do lar. 


Eva estava criando praticamente sozinha - e sendo mãe de primeira viagem -  uma criança atípica, que requer toda uma atenção e cuidado maior. E ela tentou e por tentar, percebeu que havia algo de errado com essa criança, mas seu marido nunca levava suas queixas a sério, sendo, aliás, cada vez mais permissivo com o Kevin. Além de não ajudar, o marido simplesmente ia na direção contrária. 


Kevin cresceu com um pai totalmente permissivo e, ao mesmo tempo, com uma mãe que mais parecia uma estranha. Não houve a criação de um laço saudável. 






E no fim, não acho que há vilões em "Precisamos falar sobre o Kevin" - quero dizer, talvez o Kevin após cometer a chacina.


Na verdade eu acho que mesmo não conseguindo se conectar com o filho, e claro, tendo suas falhas como mãe, Eva tentou o seu melhor, buscou ajuda, tentou falar com marido e viveu uma vida desgracenta após os assassinatos que o filho cometeu. Ela viveu quase como uma penitência. 


Também acho que aquele menininho, por mais atípico que fosse, ainda queria o carinho de sua mãe. 


Fico pensando sobre a rara cena de carinho e calmaria entre mãe e filho, onde Eva lê para Kevin uma história sobre um arqueiro [tinha a ver com Robin Hood?], e curiosamente o garoto fica justamente fascinado por... arcos. Talvez fosse uma forma de manter essa conexão, por mais tensa, disfuncional e odiosa que fosse? É quase como se o amor e o ódio coexistissem e talvez seja isso mesmo, porque por mais desconexa e disfuncional que essa relação mãe e filho fosse, ainda acho que exista amor. 


"Precisamos Falar sobre o Kevin" poderia ser - e talvez seja - uma tragédia. Uma criança atípica que nasceu em um lar que não estava pronto para ela e uma mãe que não estava pronta para criar uma criança, quem dirá uma criança atípica. Como dito antes, uma criação diferente não mudaria a natureza da criança, mas talvez mudasse sim o seu destino. 


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