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Leituras de 2025





2025 foi um ano de leituras interessantíssimas. Por conta da faculdade [TCC] e outros estudos, não consegui ler tantos livros [literários] quanto eu gostaria, mas seguimos na luta, hahahaha. De toda forma, acho que minhas poucas leituras valem por 100 ou mais, porque sinto que essas elas vieram para somar, pois além do lazer, me permitiram experienciar muitos sentimentos, me fizeram sentir e refletir sobre muitas coisas. 


Bem, não irei me prolongar demais por aqui, porque algumas resenhas ficaram grandes, hi-hi. Então simbora, com spoilers.




José Mauro de Vasconcelos, 1968



Minha primeira leitura de 2025, que na verdade, iniciei em dezembro de 2024. Essa obra me impactou tanto que eu resenhei ela separado aqui no blog e você pode conferir clicando aqui.


Portanto, não irei me estender demais aqui, rs, mas posso dizer que “O Meu Pé de Laranja Lima” é, até o momento, o meu livro nacional favorito. José Mauro de Vasconcelos tem uma escrita que te aproxima muito facilmente da história, com aquele ar mais travesso e serelepe do nosso protagonista, o Zezé, e também porque até a metade da obra, ela tem um tom mais leve.


Com o andar da carruagem, a história de fato ganha novas nuances e você percebe que a obra não é uma leitura tão leve assim e, que na verdade, ela traz um tema bastante pertinente e infelizmente atual, mesmo sendo lançada há mais de 50 anos.


Na minha resenha antiga, eu esmiuço mais a história, mas queria pelo menos dizer o quão linda é a amizade entre Zezé e Portuga e como este ilumina a vida dessa pobre criança.


“O Meu Pé de Laranja Lima”, lançado em 1968, é um livro infanto-juvenil que toca em temas importantes como a infância, o imaginário, a dura realidade da pobreza e do desemprego, a amizade, a família e a violência infantil. José Mauro de Vasconcelos nos deu uma obra atemporal e que, infelizmente, tem um ‘q’ autobiográfico.





Machado de Assis, 1899




Emblemático. Dom Casmurro, do grandessíssimo Machado de Assis, é de fato uma obra emblemática. Lançado há mais de 100 anos, esse clássico continua gerando questionamentos e deixando dúvidas e perguntas no ar. Eu resenhei essa pérola aqui no blog, você pode conferir clicando aqui, então novamente não irei estender demais.


Mas para não passar batido, eu lembro de ter dado uma nota 9,5/10 para essa obra, porque no início eu me distanciava da leitura (em alguns bem poucos momentos). Porém, depois que engata, não para mais. Nós temos um narrador-personagem, o Bentinho, e ele está narrando a própria história — que não é das mais simples — portanto não é um narrador 100% confiável (ainda mais considerando alguns aspectos de sua personalidade). Todavia — e como bem explicado no meu post separado — não acho justo simplesmente taxar o cara de louco.


Portanto, o que eu acho? Capitu traiu ou não Bentinho? Eu tenho tendência a acreditar que sim, mas não 100% também. Existe uma teoria que particularmente adoro e que comentei na resenha, então se está curioso(a), corra lá para dar uma lidinha 😊


Enfim, esse livro é icônico e fiquei pensando nele por dias. Porém, o que me deixa mais pensativa sobre ele, é o pobre do Ezequiel que viu seu “pai” se afastar por anos e do nada, sem saber o real motivo. O que passou na cabeça dessa criança? Como ela cresceu? Enfim.





Franz Kafka, 1915




A Metamorfose é uma novela de autoria do escritor tcheco, Franz Kafka, lançada no ano de 1915. 


Esta é uma obra um pouco mais difícil de comentar, porque ela tem muitas nuances e nem sei se absorvi tudo o era suposto absorver, rs.


Bem, a obra segue a vida de Gregor Samsa, um jovem caixeiro-viajante, e sua família. Ela já começa chutando a porta, pois o protagonista acorda metamorfoseado em um tipo de inseto, comumente atribuído como uma barata, embora não seja confirmado. Gregor, que até então era o provedor de sua família (composta de irmã, pai e mãe) acaba ficando impossibilitado de trabalhar e é aí que tudo desanda.


A começar pela família que fica com muito medo desse seu novo aspecto (a irmã é uma exceção, à princípio), o empregador que fica em cima, e o próprio Gregor que mesmo passando por uma situação anormal e angustiante, ainda pensa a todo momento em prover a sua família. Em nenhum segundo ele pensa em si mesmo. Ele pensa, em por exemplo, dar um jeito de trabalhar metamorfoseado mesmo, pois quer matricular a irmã na escola de música [ou algo do tipo].


No decorrer da obra, ele vai ficando cada vez mais isolado e negligenciado e até sua irmã acaba virando as costas para ele em dado momento. Eles não limpam mais seu quarto, não se preocupam muito com sua alimentação, tampouco tentam entender o que ele está passando. Há até um momento em que ele tenta sair do quarto, já que estava recluso, e então é tratado como se fosse uma ameaça, com seu pai o dando uma vassourada (salvo engano, tem tempo que li) para rechaça-lo de volta ao quarto e isso abre uma ferida em seu corpo.


Acho que um dos ponto a se pensar sobre essa obra, é como o valor de uma pessoa está ligado à produtividade, como, ao deixar de ser útil, ela acaba perdendo o seu valor e é descartada. É bem cruel, não é? Estamos falando de uma pessoa, não um objeto. Agora imagina isso dentro de um contexto familiar. Gregor levantava todos os dias super cedo, tinha uma rotina exaustiva e sempre pensava no bem de sua família, colocava o bem-estar de todos acima do seu. Porém, no momento em que ele fica impossibilitado de contribuir com as despesas da casa, de continuar bancando a vida que eles levavam, ele passou a ser... um peso. Ocorre uma desumanização do personagem, e não só em termos físicos. Ele não é tratado ou visto como uma pessoa.


Pois é, isso é bastante triste, embora muito atual. Li um artigo uma vez intitulado “Gregor Samsa: um burnoutado" (link aqui) e achei interessantíssimo. Sabemos que Kafka pode ter usado a metamorfose como alegoria a um estado incapacitante do personagem, talvez uma doença como a depressão. Olhando pela nossa ótica atual, poderia muito bem ser um burnout, como relatado no post citado.



Leia esta obra.





Robert Louis Stevenson, 1886




Eu comecei a ler esta novela achando que era uma coisa e, no fim, era outra (e não digo isso como algo ruim, eu adorei ser surpreendida). Acho que todo mundo já escutou ou leu alguma referência ao Dr. Jekyll e ao mr. Hyde, geralmente com a dicotomia bom/mau. Pois bem, eu pensei que, sim, Jekyll e Hyde eram a mesma pessoa, mas que a dicotomia fosse algo mais consciente, do tipo, uma pessoa que era boa num momento e má no outro.


Mas na verdade há realmente uma divisão entre dois seres. Esse suspense psicológico tem um “qzinho” de ficção científica, com o dr. Jekyll querendo e conseguindo separar sua essência ruim, da boa, criando assim sua parte física, psicológica e moralmente maléfica: Edward Hyde.


Eu fiz uma resenha no skoob e irei colar alguns trechos aqui, porque eu gosto dela, embora seja simples:


“O Médico e o Monstro é aquele tipo de livro que te prende totalmente, não à toa é um grande clássico. Tem todo o suspense e drama vivido pelo advogado Utterson, que não entende a estranha relação entre o dr. Jekyll, esse médico boa-praça, e o mr. Hyde, um homem sombrio e que emana ruindade.

Eu já sabia do plot, mas isso não atrapalhou a minha apreciação. A dualidade do dr. Jekyll, que quando está sob a forma de Edward Hyde, vive inescrupulosamente o que não poderia viver estando sob a pele do bom e cuidadoso médico Jekyll. Mesmo com eventual remorso, a tentação de voltar àquela vida onde não havia pudor acabou se tornando mais forte, fazendo o doutor trilhar por um caminho para qual não havia mais volta”.



Infelizmente não posso dissertar demais, porque já faz alguns meses que li esta obra, mas “O Médico e o Monstro” é o tipo de livro que agrada a muitos públicos. Tem suspense psicológico, investigação, ficção científica na medida e, claro, elementos da literatura gótica que todos amamos 😊


Em 1886, Robert Louis Stevenson publicava esta novela que entraria para o rol dos clássicos da literatura mundial.



"Todos os seres humanos, tal qual os vemos, são compostos do bem e do mal: e Edward Hyde - único na humanidade - era de pura essência maléfica" (p.126).




Dostoiévski, 1866



Arrasador. Impactante. Atemporal. Inesquecível...?


Crime e Castigo é o meu primeiro contato com a literatura russa e posso afirmar que o livro é tudo isso que falam — e um pouco mais.


Esta obra, publicada em 1866 por Fiódor Dostoiévski, ainda rende muitos debates e faz parte do rol dos clássicos da literatura mundial. A narrativa é avassaladora, é tristemente verossímil e te arrasta completamente para aquela São Petersburgo tão claustrofóbica e esmagadora.


Você vai encontrar milhares de resenhas incríveis pela internet, então não irei render demais — até porque faz uns bons meses que terminei a leitura e posso ter me esquecido de tópicos importantes. Porém deixarei partes da minha resenha do skoob, que tem muito do que senti ao finalizar essa obra tão emblemática:


“[...]

Este é o primeiro livro do Dostoiévski que leio. Confesso que em alguns momentos, durante a primeira e a segunda parte, eu me desconectava da história, mas da terceira parte pra frente é impossível de desgrudar os olhos.

Tem tantos personagens marcantes e tantos arcos que fazem você ficar sem respirar. Os diálogos do Rodion com o Porfiri, o Rodion contando tudo para a Sônia (e o Svidrigáilov escutando do outro lado), a Dúnia com a arma na mão (gelei), o sonho do potro sendo espancado, enfim, há muitos momentos marcantes.

Rodion é um personagem trágico. Ele é esse jovem super inteligente e promissor, mas que vive a miséria da desigual São Petersburgo. Ao largar a faculdade, ele se afunda naquele quarto minúsculo e abafado, se isolando do mundo, ruminando demais e entrando em profunda melancolia. Assim, ele vai ficando cada vez mais apático e, somado já a uma ideia de que alguns fins justificam os meios, ele acaba tirando a vida de uma senhora e sua irmã. Olhando para o Rodion, só conseguia pensar no provérbio: "mente vazia, oficina do diabo", porque, na minha visão, o isolamento somado ao ócio, amplificou e muito alguns sentimentos ou "ideias" que ele já vinha alimentando.

No fim, ele, que queria facilitar a sua carreira, acabou perdendo 8 anos de vida. Ou talvez tenha ganhado, afinal, ele finalmente passou a viver. Passou a sentir. Ele precisou se reconectar novamente com as pessoas e com o mundo para ter, finalmente, um motivo para estar... aqui.

Dito isto, Sônia é incrível. Essa personagem sofreu tanto, mas ainda assim tinha tanto amor e compaixão, conseguindo ultrapassar o muro que o Rodion construiu, fazendo com que ambos encontrassem, juntos, um propósito.

"[...] naquela noite o jovem não podia pensar em nada longa e continuamente, não conseguia concentrar seus pensamentos em coisa nenhuma nem tomar nenhuma resolução de forma consciente - estava apenas sentindo. A dialética cedera lugar à vida [...]" (p.576).

Incrível”




Dostoiévski criou uma narrativa claustrofóbica. A ambientação daquela São Petersburgo superlotada, abafada, quente, cheia de bares, beberrões, um caos total. E também a mente do próprio Rodion Raskolnikov, que estava uma completa bagunça. O estado mental do Rodion é tão opressivo quanto a ambientação em si.


Dito isto, não tem como ler Crime e Castigo sem entrar na pele do protagonista, porque você sabe o que ele está sentindo, o que ele está pensando — e ele simplesmente não para de pensar. De ruminar. De oscilar o humor. Acho que o Rodion só se sente realmente em paz, quando finalmente para de pensar.


Eu sou uma pessoa que passou por isolamento e sei que esses momentos, especialmente se somados a algum ócio, são um prato e cheio para ruminações, devaneios excessivos, sentimentos ruins. Então acompanhar a trajetória do Rodion foi pessoalmente incômodo, porque eu via um pouco de mim nesses momentos mais sombrios. É claro que o caso dele é muito mais complexo, ele foi confrontado com uma realidade que esmagou seus sonhos e ainda tinha umas ideias um pouco controversas.


Como eu disse na resenha, nosso protagonista é um jovem trágico: um garoto inteligente e promissor que foi esmagado pela dura realidade da época em que vivia. A pobreza, as desigualdades. Ali, não bastava ser inteligente e esforçado, não havia espaço para meritocracia — e por que isso soa tão atual?


Em algum momento da faculdade, Rodion elaborou aquela teoria sobre as pessoas ordinárias e as pessoas extraordinárias. Talvez, em outras circunstâncias, ele nunca colocasse em prática essa teoria. Porém, tendo que largar a faculdade, se confinando num cubículo abafado, sem contato humano, no ócio e passando por diversas mazelas, como a pobreza extrema e a fome, essa ideia acabou ganhando força. Aqui ainda tem a questão da Aliona ser uma pessoa que o Rodion pessoalmente desprezava — e que sabia que outras pessoas também desprezavam. Era uma pessoa tida como ruim e que tinha uma vida financeiramente boa, enquanto pessoas tidas como boas, passavam por grandes dificuldades. Enfim, tínhamos os ingredientes da tragédia: como um homem extraordinário, ele poderia tirar a Aliona da jogada, tornando assim o mundo um lugar melhor.


Quando penso na motivação do assassinato, acho que acaba sendo algo multifatorial: uma mente adoecida, pobreza extrema e ideias esquisitas. O dinheiro arrecadado com a venda dos pertences da usurária poderia custear os estudos do Rodion, sem que este dependesse de sua irmã e mãe, livrando a primeira do noivado mandrake. Em contrapartida, temos a teoria do homem extraordinário: por se incluir neste grupo, Rodion acreditava que estava tudo bem cometer o assassinato se fosse para um bem maior, como custear seus estudos e também livrar o mundo de uma pessoa má como a Aliona. Mas acima de tudo, ele acreditava que por ser um homem extraordinário, ele poderia lidar com isso – o que não acontece, porque ele desmorona.


Penso que o Rodion queria mais provar sua teoria, do que obter o dinheiro em si, tanto é que ele não liga muito para os pertences que rouba da usurária. Ele queria se provar e no fim viu sua teoria ruir.


Crime e Castigo não é uma obra simples, Dostô narra o comportamento e pensamento humano. Então, como leitora, estou dando apenas meus pitacos, uma visão que tive lendo a obra. Talvez a motivação tenha sido só o dinheiro, talvez tenha sido somente a teoria ou talvez seja multifatorial mesmo.


Analisando o título, de fato temos uma obra bem literal: acontece um crime e o culpado recebe seu castigo. O castigo como esperamos, a condenação e cumprimento da pena, acaba vindo apenas no final, com o protagonista se entregando. Mas é curioso como o ato de se entregar não configura em arrependimento, porque o Rodion não se arrepende tão facilmente, especialmente pela morte da Aliona. Ele até sente pela morte de Lisaveta, mas pela usurária não. É com o andamento do epílogo, que nós vislumbramos então esse caminho para a redenção.


No entanto, o verdadeiro castigo que esse livro traz é justamente a prisão mental que o protagonista vive no decorrer da narrativa. Ele não tem um minuto de paz após cometer o crime. Ele vive ruminando, com medo e desconfiado, ele entra em colapso físico e mental. Se o colapso vem por uma culpa ou remorso internalizado, é difícil de dizer, pois poderia ser também pelo fato dele ter percebido que sua teoria é falha ou que ele não é um homem extraordinário. Nós temos um personagem complexo, família, Dostoiévski foi brilhante ao escrever essa obra e seus personagens.


Portanto, faço ainda um adendo aos outros incríveis personagens que encontramos nesse romance: Porfiri sendo um investigador super pentelho e incisivo. Razumíkhin sendo o porto seguro de Dúnia e da senhora Raskolnikov. Svidrigáilov representando a imundície humana. Dúnia sendo uma personagem feminina super forte, bem como Katerina Ivanovna. E por último e com certeza não menos importante: Sônia.


A Sônia é incrível. É uma personagem super sofrida, mas ainda assim de um coração enorme e de uma resiliência invejável. Mesmo com todas as mazelas da vida ela ainda carrega uma fé inabalável e é essa fé e esse amor que resgatam um jovem que havia morrido em vida, porque era isso: Rodion não sentia mais nada e era a incapacidade de sentir que o levou por caminhos tão sombrios. Por isso adoro a frase que coloquei na resenha, no final ele finalmente parou de “pensar” (racionalizar tudo, ruminar, calcular) e passou a sentir, ter sentimentos, se permitir viver.


Há um motivo para Crime e Castigo ser um clássico tão comentado, adaptado e influente.


Nosso protagonista cometeu um crime hediondo, pagou por esse crime e encontrou sua redenção. Ele entendeu o que fez, entendeu em que estado se encontrava e se permitiu recomeçar. Ele viu em Sônia o seu recomeço.


Temos aqui um romance psicológico, um pouco de investigação policial, a conexão com o divino, aspectos morais, temas complexos e pesados, e uma MASTERPIECE.






2025 foi um ano e tanto e sinto que escolhi muito bem minhas leituras. Não sei como será 2026, mas tenho boas expectativas para o meu lado leitora.


Enfim.









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